sábado, 11 de dezembro de 2010

Incapacidade (1º voo)

São os instrumentais dos desvios dos olhares,
A sede da felina curiosidade que penetra e espia
Na desinteressada resposta da entidade que nos fascina.

Mas acaba tudo na oração, na transformação inútil em palavras que nada mais emitem senão uma leve e ténue imagem do que o peito ainda grita e espanca, medroso e inquieto, pesado e cheio, no seu seio de incertezas em que a tormenta é espectador afortunado.
A vítima desdobra-se e torce-se na ambição que o pecado motiva, pouco…ou quase nada, se reflecte na banalidade que o momento carrega por definição, destruindo toda a visão de cristal, a predeterminação e toda a fachada e hipocrisia que é julgar todo mundo, e conferir a nós a supremacia de necessidade, a supremacia completa na revogação de todas as outras pequenas coisas, que no tal momento são pó.
Continua na cabeça o batuque, aquele gemido não se vai e já o corpo sente as suas consequências: as mãos suam… sem perdoar a secura que o frio me tinha impingido nas palmas; sobe-me um raio disparado do pé ao último cabelo, rápido demais para descrever, só se descreve como um calafrio e escreve-se torto e nefasto na linha que nos dá simetria; o sangue vai borbulhando e cavalgando para os extremos; os olhos escolhem diferentes pontos em poucos segundos, receosos de serem examinados; o coração vai pulando ao soletrar de cada pensamento deixando surda a razão e despontando o instinto que a natureza nos deu.
Vou-me acalmando, pergunto e respondo a sorrir, nem percebo se me estou a rir por vontade ou obrigação, mas agora também interessa. Quero deixar uma marca pessoal na sua lembrança, algo que ela se lembre sempre que ouvir o meu nome ou umas sílabas parecidas. Já lhe contei aquelas aventuras que tive e que exagerei, já confessei os males que fui vítima e nem os numerei, até contei histórias de conhecidos que nem sinceramente conheço, mas que pelas tais histórias me marcaram – assim sim, devo conseguir um espacinho nas suas molduras.
Mas nada… as suas reacções pareciam automáticas e apenas guiadas pela sua boa conduta de não ignorar um ser humano na sua tentativa de explicação sentimental. Do frenesim inicial, do cumprimento que despertou em mim mil imagens futuras, dos caminhos que imaginei que só juntos poderíamos percorrer, fiquei sem nada. Devo dizer que me senti completamente agredido e padecente do seu desinteresse. Parei de sorrir, ela questionou o novo olhar, mas nada disse, pensou e olhou para mim com pena ou desprezo ou talvez remorso de me ter dado um oportunidade, deixou de me fazer rir…
A pequena sinfonia que me acompanhava chegou a um desabafo de angústia, as notas já não preenchiam o papel, só o riscavam e as suas vozes raquíticas já nem de perto se ouviam.
Foi só um percalço no dia, um encontro de desencontros, fugimos os dois após as despedidas forçadas, ela seguiu bem, não olhou uma vez para trás ao afastar-se, já nem pensava em mim de certo, reflectia talvez a parvoíce em que eu me enquadrei perfeitamente e o seu erro em me ter acompanhado, durante cerca de meia hora. Eu olhei algumas vezes para trás e só pensava na minha triste figurinha, porque não posso eu ser normal e levar de ânimo leve um encontro, sem complicar tudo, sem estragar e chatear a conversa. O mais triste é a curiosidade que tenho de mim nestas situações, consigo sempre me surpreender com novas e geniais formas de auto degradação, trato sempre de levar comigo cargas enormes de explosivos constrangedores para um suicídio certo, em que a motivação é apenas obter uma explosão um pouco mais forte que antecedente.
Mas pegando no exemplo da 7ª arte, tudo o vento leva, e era uma tarde de inverno e o vento até nos leva a alma se não nos agarrarmos bem. Eu até posso andar como pau mandado do vento, atirado de um lado para o outro, mas se nesse remoinho puder sentir uma brisa que me aqueça a alma…o vento de mim não leva nada! Assim vou voando por momentos efémeros, vou voando com a confusão da minha cabeça, vou voando por lábios que me negam, vou voando em busca de quem me quer e não me deixará voar mais.

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