Agora estou de pé. À meia hora atrás estava deitado, encostado na cama, encostado em duas almofadas sobrepostas espancadas no aconchego da parede.
Nessa cama há também um cobertor, que já me é insuportável, que não resiste á inquietude. Sempre que o olho com atenção contorce-se e brinca com a sanidade que me resta.
De pé, com pé frio no chão, me acomodei…há mais de uma hora que me encontro de pé. O meu olhar tem cronometrado o tempo no relance, que já é rotina, do relógio de ponteiros velhos e tortos que a parede ostenta e a janela banha de luz.
Mas não é só o cobertor que me intruja neste serão, infelizmente, o candeeiro da escrivaninha vai de sombra mirrada e fina, a massa gorda e tenebrosa que engole o quarto faminta de escuridão; a fechadura tem lá uma chave, menos só que eu já é, não a entendo…a chave insiste em rodear e tornear os contornos em que se insere, mas a fechadura não tranca nem destranca. E ainda pior é ver o manípulo, ausente desta discussão, ter uma atitude completamente desinteressada deste acontecimento chocante.
A janela, solteira e tímida, mais não mede que um braço em largura e um e meio de altura e é ornamentada com dois finos cortinados tão transparentes como inúteis, impotentes na emissão total da luz diurna e no trabalho sigiloso, requerente de omissão, de um assassino.
Já esqueci a razão de ainda não me ter voltado a deitar. Levantei-me, acho eu, por não conseguir calar as vozes que me gritam histéricas no crânio e também os olhos rebeldes que iam-se abrindo e observando a miscelânea completa de movimentos aleatórios que todos os elementos deste quarto praticam com distinção.
Sim, penso que já há motivo, mas mesmo assim porque razão me levantei? Estarei eu a fraquejar? Poderia muito bem ter ignorado tudo aquilo que na sua boa convicção me tentou desalojar do meu leito. Chega! Estou farto de analisar todos os movimentos e os segundinhos que os separaram, em sinceridade, já nem me quero deitar novamente, só para não ouvir as perguntas que aquele bichinho em mim não deixa passar sem resposta.
Passam trinta e nove minutos das quatro da manhã do dia trinta e um de Março de dois mil e dez, ontem um atentado fez quatro dezenas de mortos na Rússia e foi-me enviado um e-mail do partido referente á actual conjuntura económica; mas agora estou de pé, ainda de queixo levantado e cabeça erguida olho para a parede que me afronta com respeito e progressiva submissão à sua persistência, é realmente extraordinário.
Tudo no quarto treme, a luz dos holofotes nocturnos dispara sobre a parede e o ricochete leva meia-luz às fotos velhas, livros e tralhas; a cama, não a vejo por me encontrar de costas para ela, mas sinto a sua vibração e respiração na pele, vai estando mais calma ou mais ofegante consoante a disposição; a porta que me enche um bom grau do que vejo, está neste momento em negação, as suas arestas quebram os pórticos e os efeitos vão sendo engolidos por esses; não percebo este ritual, tudo se obstina em meu redor, tudo é obsoleto ou extravagante; só o que encaro de frente é imutável, a parede não se move, não se queixa, não berra por atenção nem se deixa enlouquecer por toda a demência que emana deste quarto.
A parede está a mudar, a pressão do que a envolve é a sua maldição, começou agora a gemer…é um som de uma dor profunda e antiga, de uma ferida que infecta por retroacção, essa dor começou por se expandir ao tecto que jorrou sangue para os meus olhos; as janelas quebraram os seus vidros e fugiram com a brisa da rua; os lençóis envolveram-se no meu corpo e começaram, lentamente, a asfixiar-me; os meus pés foram cortados pelo avanço galopante da parede; um dos meus braços explodiu em chaga diabólica; a parede engoliu todo o quarto, infiltrou-se no meu olho e…
O relógio marca meia-noite do mesmo dia, não questionei a sua projecção; o quarto está normal, tudo no sítio, um pouco de luz mas de pronto fechei as cortinas; a cama repousa; a porta está aberta e eu acabei de me deitar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário